• Alessandra Girotto

O que uma coisa tem a ver com a outra?

Decidi deixar de fazer as lives, mas confesso que havia decidido com dor no coração e dúvida se era realmente o melhor a se fazer. Eu decidi estar mais presente e fazer mais lives pouco antes da coisa estourar. Já estava programada para fazer pelo menos 3 por semana, mas tentaria fazer mais. Logo em seguida, no dia 12/03, houve o primeiro movimento aqui em Campinas com o anúncio de que a UNICAMP estava suspendendo as aulas. Isso me fez decidir que realmente queria ficar mais presente para ajudar e apoiar durante esse processo. Naquele dia fiz a agenda de lives diárias que começaria a partir da segunda.

A primeira semana foi ótima, mas já comecei a sentir certo incômodo com várias coisas. Ao mesmo tempo que rolava um discurso de vamos desacelerar e aproveitar para olhar pra dentro, havia um número impressionante de coisas sendo oferecidas de graça para você ser super produtivo e dar um "up" durante o isolamento social. Em pouco tempo o número de lives no Instagram já estava absurdo. Cada vez que eu entrava eram vários e vários perfis em live naquele momento, isso sem contar o monte de avisos de "fulano está ao vivo agora". Esse movimento todo começou a me gerar uma angústia que não sabia definir muito bem o que era. Enquanto isso também começava a ver o número de pessoas que estavam ficando desempregadas ou sem poder exercer sua profissão diante da necessidade de ficar em casa. Outras que, como eu, apesar de não perder a possibilidade de exercer a profissão também sofreram com isso pois são muitas as pessoas que ficaram sem poder pagar, sem privacidade ou simplesmente com medo demais para continuar com qualquer coisa além do mais essencial nesse momento. E isso tudo está bem, pois assim é vida e há um bom lugar para isso aqui dentro. Mas ao mesmo tempo também não está. Não está porque me entristece. Entristece profundamente ver tudo isso acotecendo. Entristece ver pessoas desesperadas querendo trabalhar porque não sabem como ou que vão comprar pra comer semana que vem. Entristece ver que alguns não estão dando a mínima para o que está acontecendo enquanto tem tanta vida em risco por aí (em vários sentidos). Entristece ouvir que não sou responsável pelo coletivo ou pelo outro, que não tenho nada a ver com isso (seja pelo motivo que for). Entristece por várias outras razões... Obviamente essa tristeza também tem andado junto com medo, indignação e raiva. Mas também com gratidão, amor e doação. E aqui voltamos às lives. Com todos esses sentimentos rondando e tantas coisas acontecendo eu precisei rever. Não estava congruente, não fazia sentido. Eu queria estar perto e apoiando, mas o caminho parecia errado. Cada vez mais parecia que havia um excesso de informação e um abuso acontecendo, ao invés de um apoio afetuoso e saudável. Diante do conflito eu resolvi para de questionar e lutar contra e soltar. Soltei e desacelerei. E desacelerando eu me permiti sentir melhor a tristeza, a revolta e o medo. Enquanto ficava por aqui, sem tantas demandas, consegui ouvir melhor o que esses sentimentos queriam me dizer. Chorei ao ouvir da minha tristeza que essa era uma forma de eu aprender a amar minha parte que não quer se relacionar, que não quer se responsabilizar. De amar minha parte que tem orgulho espiritual, assim como aquela que quer salvar a todos e acaba se sacrificando no lugar do outro (que faz pequenos pactos com a morte, diariamente). Ouvi do meu medo sobre minha mesquinharia e meu desejo de guardar só pra mim o que tenho, de não compartilhar. Mas também sobre minha falta de confiança na vida, onde tenho um lado que acredita que para eu sobreviver ou receber o outro irá perder (e nesse lugar eu distorcidamente me travo). Aos poucos a revolta me levou a olhar pros meus pais e agradecer. A perceber os pais maravilhosos que tenho, que nesse momento estão vivos e se cuidando. A olhar pra minha filha e ver a força que ela está desenvolvendo ao aprender a passar por tudo isso sozinha, estando morando longe de casa há tão pouco tempo. A saber que há tantos outros jovens na mesma situação que ela, também crescendo muito com isso. Essa percepção me traz ainda mais esperança de que isso tudo não será em vão. Mas esses sentimentos todos também trouxeram outro recado pra mim. Me fizeram perceber a coragem de me abrir e de ser congruente comigo. A dizer "não" quando tudo parece te empurrar a dizer "sim". A seguir o que teu coração insiste em dizer que é o caminho certo, mesmo que pareça errado... Como disse, ainda estou disponível de inúmeras outras formas, mas as Lives agora serão só de segunda, às 20h40 - até essa maré passar ou o sentimento mudar. Eu adoro conversar com vocês nelas, tirar as dúvidas, orientar. Continuará sendo um imenso prazer conversar com vocês. Espero te ver lá. Um abraço com carinho!

🦋 𝑨𝒍𝒆𝒔𝒔𝒂𝒏𝒅𝒓𝒂 𝑮𝒊𝒓𝒐𝒕𝒕𝒐 – Sou Psicanalista, Life Coach e também trabalho com várias terapias Complementares. Atualmente participo do Programa Pathwork® de Transformação Pessoal e da formação nas Novas Constelações Familiares.

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